Sabe aquela sensação de morder um morango suculento e, de repente, ele ter gosto de nada ou, pior, de metal? Para quem está enfrentando um tratamento oncológico, essa frustração é real e diária. Não é frescura e nem falta de apetite no sentido psicológico da palavra; é uma alteração biológica profunda que mexe com um dos nossos prazeres mais primitivos: o comer. Como médico, vejo isso acontecer no consultório o tempo todo. O paciente chega desanimado porque o arroz com feijão, que sempre foi o porto seguro, agora parece areia na boca. A quimioterapia e a radioterapia (especialmente na região de cabeça e pescoço) são as grandes responsáveis por isso. Elas atingem as células que se multiplicam rápido — e as nossas papilas gustativas entram nesse grupo. O resultado é a disgeusia, esse “curto-circuito” no paladar que transforma o doce em amargo e faz a carne ter gosto de ferro. O desafio de manter o tanque cheio O grande problema é que, justamente quando o corpo mais precisa de combustível para se recuperar da toxicidade dos remédios e da própria cirurgia oncológica, a comida perde a graça. Mas aqui vai um ponto técnico importante: o câncer consome muita energia. Se a gente não repõe, o corpo começa a “comer” os próprios músculos. É o que chamamos de sarcopenia, e ela é uma inimiga perigosa, pois um paciente mais fraco tolera menos o tratamento e tem mais efeitos colaterais.
Para dar a volta por cima, a gente precisa de estratégia. Se o gosto metálico está incomodando, uma dica de ouro que sempre dou é trocar os talheres de metal por talheres de plástico, bambu ou madeira. Parece algo bobo, mas diminui muito aquela sensação química desagradável a cada garfada. Outro ponto é a temperatura. Alimentos muito quentes costumam exalar cheiros fortes que disparam o enjoo. Já as preparações frias ou em temperatura ambiente — como um sanduíche natural, um sorvete caseiro de frutas ou um macarrão tipo “pasta salad” — costumam ser muito melhor aceitas. O frio dá uma leve anestesiada nas papilas e reduz a percepção de sabores estranhos. Pequenos volumes, grandes densidades Não adianta tentar forçar um pratão de pedreiro se a pessoa está nauseada. A regra aqui é: coma pouco, mas coma várias vezes. E faça cada colherada valer a pena. Se você só aguenta comer três colheres de purê, vamos colocar nesse purê um fio generoso de azeite extravirgem, um ovo batido ou um queijo mais calórico. A ideia é aumentar a densidade calórica e proteica sem aumentar o volume de comida. Em um caso recente que acompanhei, uma paciente não conseguia mais beber água porque sentia um gosto amargo insuportável. A solução? “Temperamos” a água com rodelas de limão e hortelã. A acidez e o frescor ajudam a limpar o paladar e estimulam a salivação, o que facilita muito a descida do alimento. A ciência por trás do prato A nutrição oncológica moderna vai muito além de “comer bem”. Hoje falamos em imunonutrição. Alimentos ricos em ômega-3, por exemplo, ajudam a modular a inflamação que o tumor causa. Já as proteínas (frango, peixe, ovos, leguminosas) são os tijolos que reconstroem os tecidos lesionados pela terapia.